quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Dublin escolhe você

Dizem por aí que você não escolhe Dublin, Dublin escolhe você.

Ninguém escolhe passar frio. Dublin que nos mostra seu calor com seu povo conhecido como um dos mais acolhedores da Europa. A terra com os taxistas sempre cheios de histórias pra contar, das flower ladies da Grafton e, claro, os tiozinhos de 85 anos nos pubs contando seus causos com suas bochechas vermelhas e a pint na mão.
E também mostra a delícia de cada estação: as tulipas no St Stephen’s na primavera, os festivais no verão que vão tarde com um sol que se põe as 23 horas, o tapete de folhas multicoloridas no outono e a alegria nas redes sociais com meia dúzia de flocos de neve no inverno.

Ninguém escolhe fazer cara de tonto quanto não entende o sotaque tipicamente carregado. Dublin que te tira da zona de conforto mostrando que a língua é o menor do aprendizados. Que você vai aprender a viver com flatmate caloteiro e perdoar porque ele é do bem, a rir das vezes que te perguntam se o céu é azul e você responde que quer a torta de chocolate, a ter orgulho de cada vez que você sofre bullying com as caras incrédulas dizendo que você é fresco porque escova os dentes todos os dias depois do almoço.
Ninguém escolhe a insegurança de não saber o que fazer numa cultura nova. Dublin que te diz que língua e a mão inglesa não são nada comparados à segurança de voltar de madrugada à noite da balada com poucos riscos maiores que levar uma ovada de um knacker. Que ser atendido no revenue para solicitação do imposto indevidamente recolhido e ter seu problema resolvido em menos de 40 minutos.
Ninguém escolhe perder suas crenças tão estimadas. Dublin que te mostra a cada segundo como pré-conceitos são infundados. Que chineses são as pessoas mais doces do mundo, que a culinária indiana tem muito mais que curry, que italianos não são todos broncos, que espanhóis não sabem só fazer tapas e dançar flamenco e que franceses tomam banho todos os dias além de serem muito mais abertos que a visão blasé que construímos deles.
Ninguém escolhe, sem uma boa dose de saudosismo, deixar seu ninho. Dublin que te mostra que suas asas só te levam a um ninho tão acolhedor quanto sua casa. Que flatmates formam laços as vezes até mais duradouros que os que tem com membros de sua família. Que querer fugir de brasileiros só porque está morando ~nazoropa~ é a maior estupidez porque na hora do pegapacapá são seus conterrâneos que te vão estender a mão.
Ninguém escohe passar vontade. Dublin que te mostra que é capaz pagar as contas, se divertir e tirar várias férias por ano conhecendo outros países ganhando o salário mínimo. Que é possível estar sempre na moda pagando poucos euros na Penneys. Que carro do ano, roupa da moda e bebida-que-pissssca são coisas que não te fazem melhor ou pior que ninguém.
Mas pra não te tornar um insuportável, Dublin também não te deixa esquecer do valor da sua terra: que não há culinária melhor que o feijão da sua mãe, que o pastel de palmito com caldo de cana ou aquela roda de samba que só existe num boteco com aquela mesa amarela horrorosa da Skol.

Ninguém escolhe perder seu orgulho. Dublin que te mostra a dignidade de um subemprego. Que lavar pratos faz de você alguém tão digno quanto um juiz. Que você pode não estar nem errado mas que não tem nada demais em falar “sorry” trezentas vezes por dia. Que não dói nada (e é lindo) ser extremamente polite ao falar mesmo quando você apenas quer saber uma informacão rápida (Hello miss, sorry to bother you but would you mind telling me where this street is?). E que conviver com tantas pessoas e histórias diferentes vai te ensinar a ter muito mais paciência e compaixão.
Ninguém gosta de sair da zona de conforto. Dublin que te dá o reconhecimento da importância da família e amigos (as vezes não devidamente valorizados no Brasil). Que tudo pode mudar de uma hora pra outra e como as adversidades é que vão te fazer uma pessoa muito mais forte e realizada.
Ninguém gosta não ter suas expectativas atendidas. Dublin as supera: ouvir Galway Girl num pub é sempre uma emoção, passear pelo interior e ver as ovelhinhas e bolas de feno te dá vontade de sair gritando “freeeeedooooom” – o que você não faz para não estragar o refrão de Linger do Cranberries tocando no som do carro.
Hoje completo exatos dois anos na Ilha Esmeralda. E não, eu não escolhi Dublin, foi Pasárgada que me Acolheu.

Texto: Milena Nicolaico

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