quarta-feira, 18 de maio de 2016

Vida de solteiro





“E a namorada?” Alguém vai me perguntar. Aí vou sorrir e responder: “Estou solteiro!”. E logo depois vem aquela cara de: “nossa, coitadinho”, quando ao meu ver era a hora certa da pessoa me abraçar e pularmos gritando: “Parabéns Campeão!” Sabe, realmente não entendo essas pessoas que colocam o fato de encontrar uma pessoa como sendo um dos objetivos primordiais da vida. Como se a ordem natural fosse: nascer, crescer, conhecer alguém e morrer.


A meu ver, não é assim. As pessoas se dizem solteiras como quem diz que está com uma doença grave, alguém que precise de ajuda. Não é nada disso. Existe sim vida na “solteridão”! E das boas. E isso não quer dizer farra, putaria, poligamia ou promiscuidade. Aliás, quer dizer sim, mas só quando você tiver afim. No mais quer dizer liberdade, paz de espírito, intensidade. E olha que escrevo isso com algum conhecimento de causa, já que tenho vários anos de namoro no currículo.


De verdade, do fundo do coração, eu estou muito bem solteiro. Acho até que melhor que antes. Gosto de acordar pela manhã sem saber como vai terminar meu dia. Gosto da sensação do inesperado, da falta de rotina e de não ter que dar satisfação. Gosto de poder dizer sim quando meu amigo me liga na quinta-feira perguntando se quero viajar com ele na manhã seguinte. De chegar em casa com o Sol nascendo. De não chegar em casa as vezes. De conhecer gente nova todos os dias. De não ter que fazer nada por obrigação. De viver sem angústia, sem ciúme, sem desconfiança. De viver.


Acredito que todo mundo precisa passar por essa fase na vida. Intensamente inclusive. Sabe, entendo que talvez essa não seja sua praia. Ou talvez você nunca vá saber se é. Eu mesmo não sabia que era a minha, e veja só você, hoje sou surfista profissional. O que percebo são pessoas abraçando seus relacionamentos como quem segura uma bóia em um naufrágio. Como se aquela fosse sua última chance de sobrevivência. Eu não quero uma vida assim. Nessa hora talvez você queira me perguntar: “Mas e aí? Vai ficar solteirão para sempre? Vai ser assim até quando?” E eu vou te responder com a maior naturalidade do mundo: “Vai ser assim até quando eu quiser”.


Quando encontrar alguém que seja maior que tudo isso, ou talvez alguém que consiga me acompanhar. E não venha me dizer que aquele relacionamento meia boca seu é algo assim. O que eu espero é bem diferente. Quando se gosta da vida que leva, você não muda por qualquer coisa. Então para mim só faz sentido estar com alguém que me faça ainda mais feliz do que já sou, e como sei que isso é bem difícil, tenho certeza que o que chegar será bem especial. E se não vier também está tudo bem sabe? Eu realmente não acho que isso seja um objetivo de vida. Não farei como muitos que se deixam levar pela pressão dessa sociedade.


Tanta gente namorando pra dizer que namora, casando pra não se sentir encalhado, abdicando da felicidade por um status social. Aí depois vem a traição, vem o divórcio, a frustração e todo o resto tão comum por aí. Não, não. Me deixa quietinho aqui com minha vida espetacular. Pra ser totalmente sincero com você, a real é que não é sua situação conjugal que te faz feliz ou triste.


Conheço casais extremamente felizes e outros que estão há anos fingindo que dão certo. Conheço gente solteira que tem a vida que pedi para Deus e outros desesperados baixando aplicativos de paquera e acreditando que a(o) ex era o grande amor e que perdeu sua grande chance. Quanta bobagem.


A verdade é que só você mesmo pode preencher o seu vazio, e colocar essa missão nas mãos de outra pessoa e pedir pra ser infeliz. Conheço sim vários casais incríveis, assim como tantos outros que não enxergam que estão se matando pouco a pouco. Só peço que não deixem que o medo da solidão faça com que a tristeza pareça algo suportável. Viver sozinho no início pode parecer desesperador, mas de tanto nadar contra a maré, um dia você aprende a surfar. E te digo que quando esse dia chegar, você nunca mais vai se contentar em ficar na areia. Desse dia em diante só vai servir ter alguém ao seu lado se este estiver disposto a entrar na água com você.

Rafael Magalhães www.precisavaescrever.com.br


quinta-feira, 5 de maio de 2016

O amor que se revelam capazes de acender deriva de um tanto de coisas, muitas delas indecifráveis. Assim como os gatos são.

T.S. Elliot escreveu um livro inteiro sobre eles, que são protagonistas de vários contos de Edgar Allan Poe e três poemas no clássico “As flores do mal”, de Charles Baudelaire. Truman Capote, Anton Tchecov, Lewis Carrol, W.B. Yeats, Jorge Luis Borges e Ezra Pound também viveram cercados por esses animais tão queridos quanto odiados. A exemplo de Ernest Hemingway, que chegou a ter 50 em sua propriedade na Ilha de Key West, nos EUA. A lista parece interminável: Aldous Huxley, Victor Hugo, Herman Hesse, H. P. Lovecraft, Guimarães Rosa, Mark Twain, Honoré de Balzac, La Fontaine, Ferreira Gullar, Lord Byron, William Faulkner, Raymond Chandler, Jean-Paul Sartre, Carlos Drummond de Andrade, Mia Couto, Julio Cortázar, Stephen King. Mas, afinal, que tipo de afeto une tão intensamente os escritores aos gatos?
A liberdade, afirmam alguns. A discrição, ponderam outros. “Gosto de gatos porque eles são elegantes e silenciosos, e têm efeito decorativo; uns leõezinhos razoavelmente dóceis, andando pela casa”, conta Patricia Highsmith no ensaio que dedicou aos felinos. Eu, que convivo com eles há cinco anos, diria que uma resposta concreta é improvável. E que o amor que se revelam capazes de acender deriva de um tanto de coisas, muitas delas indecifráveis. Assim como os gatos são.
Mila, a minha gata, é silenciosa a maior parte do tempo. Quando quer atenção, ou comida, arranha o pé da cama ou simplesmente mia. “Como todas as criaturas puras, os gatos são práticos”, já disse William S. Burroughs. A relativa independência evita a necessidade permanente de atenção, embora isso não deva ser confundido com indiferença (as consequências seriam terríveis).
Além disso, gatos dormem muito, o que garante a placidez imprescindível ao ofício da escrita. Charles Bukowski admirava-os justamente pela capacidade de acumular até 20 horas de sono por dia, “sem hesitação e sem remorsos”.
“Os gatos oferecem para o escritor algo que os outros humanos não conseguem: companhia que não é exigente nem intrometida, que é tão tranquila e em constante transformação quanto um mar plácido que mal se move”, observa Patricia Highsmith. São, ainda, implicantes e vaidosos. Traços inconfundíveis, apesar de nem sempre confessáveis, também daqueles que rendem suas horas à escrita.
Ao perceber que uma pessoa não quer sua companhia, o gato se apressa em forçar uma aproximação travessa, esfregando-se nas pernas do incauto ou pulando em seu colo. Em contrapartida, esnoba por simples diversão quem se achega trazendo carinhos. “O gato não é humilde”, sintetiza Lygia Fagundes Telles, outra amante dos felinos.
Pablo Neruda chamava os gatos de “pequenos imperadores sem orbe”, e num de seus poemas confessou: “Tudo sei, a vida e o seu arquipélago, / o mar e a cidade incalculável, / a botânica / o gineceu com os seus extravios, / o pôr e o menos da matemática, / os funis vulcânicos do mundo, / a casca irreal do crocodilo, (…) / mas não posso decifrar um gato”.
Talvez, no fundo, a paixão dos escritores pelos gatos se defina nessa afeição pelo que é incompreensível. “O gato, que nunca leu Kant, é possivelmente um animal metafísico”, comentou certa vez Machado de Assis. Quando esbarro meus olhos nos olhos da Mila — fixos, firmes, enigmáticos —, a frase ecoa, fazendo vibrar notas sempre novas, sempre originais. Mas esqueçamos por um segundo todo o mistério. Se como disse Patricia Highsmith, “o gato faz de um lar, um lar”, Mila é a minha casa. E isso basta.
***
Esta crônica, intitulada "Escritores e seus gatos", é parte do livro "Na dobra do dia" (Rocco). Na foto, Patricia Highsmith.

Quero viver ao lado de gente humana, muito humana Que não foge de sua mortalidade Caminhar perto de coisas e pessoas de verdade.

"Contei meus anos e descobri
Que terei menos tempo para viver do que já tive até agora
Tenho muito mais passado do que futuro
Sinto-me como aquele menino que recebeu uma bacia de jabuticabas
As primeiras, ele chupou displicentemente
Mas, percebendo que faltam poucas, rói o caroço.

Já não tenho tempo para lidar com mediocridades
Inquieto-me com os invejosos tentando destruir quem eles admiram
Cobiçando seus lugares, talento e sorte
Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas
As pessoas não debatem conteúdo, apenas rótulos
Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos
Quero a essência... Minha alma tem pressa
Sem muitas jabuticabas na bacia
Quero viver ao lado de gente humana, muito humana
Que não foge de sua mortalidade
Caminhar perto de coisas e pessoas de verdade."
__Ricardo Gondim