quinta-feira, 5 de maio de 2016

O amor que se revelam capazes de acender deriva de um tanto de coisas, muitas delas indecifráveis. Assim como os gatos são.

T.S. Elliot escreveu um livro inteiro sobre eles, que são protagonistas de vários contos de Edgar Allan Poe e três poemas no clássico “As flores do mal”, de Charles Baudelaire. Truman Capote, Anton Tchecov, Lewis Carrol, W.B. Yeats, Jorge Luis Borges e Ezra Pound também viveram cercados por esses animais tão queridos quanto odiados. A exemplo de Ernest Hemingway, que chegou a ter 50 em sua propriedade na Ilha de Key West, nos EUA. A lista parece interminável: Aldous Huxley, Victor Hugo, Herman Hesse, H. P. Lovecraft, Guimarães Rosa, Mark Twain, Honoré de Balzac, La Fontaine, Ferreira Gullar, Lord Byron, William Faulkner, Raymond Chandler, Jean-Paul Sartre, Carlos Drummond de Andrade, Mia Couto, Julio Cortázar, Stephen King. Mas, afinal, que tipo de afeto une tão intensamente os escritores aos gatos?
A liberdade, afirmam alguns. A discrição, ponderam outros. “Gosto de gatos porque eles são elegantes e silenciosos, e têm efeito decorativo; uns leõezinhos razoavelmente dóceis, andando pela casa”, conta Patricia Highsmith no ensaio que dedicou aos felinos. Eu, que convivo com eles há cinco anos, diria que uma resposta concreta é improvável. E que o amor que se revelam capazes de acender deriva de um tanto de coisas, muitas delas indecifráveis. Assim como os gatos são.
Mila, a minha gata, é silenciosa a maior parte do tempo. Quando quer atenção, ou comida, arranha o pé da cama ou simplesmente mia. “Como todas as criaturas puras, os gatos são práticos”, já disse William S. Burroughs. A relativa independência evita a necessidade permanente de atenção, embora isso não deva ser confundido com indiferença (as consequências seriam terríveis).
Além disso, gatos dormem muito, o que garante a placidez imprescindível ao ofício da escrita. Charles Bukowski admirava-os justamente pela capacidade de acumular até 20 horas de sono por dia, “sem hesitação e sem remorsos”.
“Os gatos oferecem para o escritor algo que os outros humanos não conseguem: companhia que não é exigente nem intrometida, que é tão tranquila e em constante transformação quanto um mar plácido que mal se move”, observa Patricia Highsmith. São, ainda, implicantes e vaidosos. Traços inconfundíveis, apesar de nem sempre confessáveis, também daqueles que rendem suas horas à escrita.
Ao perceber que uma pessoa não quer sua companhia, o gato se apressa em forçar uma aproximação travessa, esfregando-se nas pernas do incauto ou pulando em seu colo. Em contrapartida, esnoba por simples diversão quem se achega trazendo carinhos. “O gato não é humilde”, sintetiza Lygia Fagundes Telles, outra amante dos felinos.
Pablo Neruda chamava os gatos de “pequenos imperadores sem orbe”, e num de seus poemas confessou: “Tudo sei, a vida e o seu arquipélago, / o mar e a cidade incalculável, / a botânica / o gineceu com os seus extravios, / o pôr e o menos da matemática, / os funis vulcânicos do mundo, / a casca irreal do crocodilo, (…) / mas não posso decifrar um gato”.
Talvez, no fundo, a paixão dos escritores pelos gatos se defina nessa afeição pelo que é incompreensível. “O gato, que nunca leu Kant, é possivelmente um animal metafísico”, comentou certa vez Machado de Assis. Quando esbarro meus olhos nos olhos da Mila — fixos, firmes, enigmáticos —, a frase ecoa, fazendo vibrar notas sempre novas, sempre originais. Mas esqueçamos por um segundo todo o mistério. Se como disse Patricia Highsmith, “o gato faz de um lar, um lar”, Mila é a minha casa. E isso basta.
***
Esta crônica, intitulada "Escritores e seus gatos", é parte do livro "Na dobra do dia" (Rocco). Na foto, Patricia Highsmith.

Nenhum comentário:

Postar um comentário